Travessa Larga

" TRAVESSA: rua estreita e curta que estabelece comunicação entre duas ruas principais. " - - Por vezes pode ser larga...

Nome:
Localização: S.Maria, Sintra, Portugal

terça-feira, novembro 29, 2005

Pessoa

AVISO À NAVEGAÇÃO ( se ainda for a tempo...)

" A RTP dedica esta madrugada mais de cinco horas de programação àquele que é considerado um dos maiores poetas portugueses ".

No Canal Um, a partir das 01,30 h.

Letras - S

Direi deste tempo que há um S
há uma sombra e um silêncio
há um S de sigla e de suspeita
com seus sussuros...

Não sei se signo não sei se sina
não sei se simplesmente sujo.
Ou só servil. Ou só sevícia

Há um S de Saturno
há um susto
há um S de soturno
sobre um S de sol

Deste tempo direi
que há um S
de sepulcro

Sentinela. Sentinelas

Ou talvez Selva. Talvez serpente.
S de sebo e de sebenta: seco seco

E também senão. E também sinistro.

Deste tempo direi
que há um S
sem sentido.

E também Setembro ( ou Novembro ). E também solstício
Saga e safra.
Ou talvez semente. Ou talvez segredo.

Há um S de sal e silex
há um silvo.
Há uma sílaba ciciada.

E também o sonho: entre suar e ser.
( Como um soluço como um soluço )

Deste tempo direi
que há um S
de sol e som.
Há Setembro ( ou Novembro ) e um assobio
contra um S de sombra e de silêncio.

Adaptado do poema S (ésse)
Letras, Manuel Alegre 18-Jan-74

sábado, novembro 26, 2005

Crónicas

A propósito de ti

Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a TV Guia sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos italianos da Mafia.Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio, assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol e voltamos para Almada à noite, com o jantar que a tua mãe nos deu numa marmita embrulhada no Record, a tempo de assistir às perguntas sobre factos e personalidades, do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.
Somos felizes.A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andámos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo
- Veja-me lá isso Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa, o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê ?
e eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo a Jóia magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.
Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez e o que não vai lá abaixo fica à janela, a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis com o ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.
Somos felizes. Por isso não me preocupei no sábado com o animal muito entretido na praceta e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a andar devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze tirei o cozido do forno e comi sózinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa nem pinturas nem a fotografia do teu pai nem nada.
Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou a saber porque é que não fomos ao Feijó e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que não te foste embora visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um microondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera.

António Lobo Antunes- Algumas crónicas

Prémios

Prémios internacionais da blogosfera

Melhor Weblog do Mundo: Mais respeito que sou tua mãe
Escolha do público:
Tupiniquim
Prémio Especial Repórteres Sem Fronteiras:
Manal and Alaa`s bit bucket
Blog jornalistico: No minimo
Podcasting:
PinkKe

sexta-feira, novembro 25, 2005

Nos teus anos

Quería dedicar-te um poema. Se fosse capaz de o fazer.
Quería dizer-te igualmente o quanto contas para mim.
Quería pedir-te desculpa pelos meus lapsos, omissões, e todas as vezes que não te comprendi.
Quería dizer-te também o quanto tens sido especial para " os meus rebentos ". Que nunca sentiram, em todo este tempo, que eras uma segunda mãe.
Quería dizer-te tanto. Mas não sou capaz de muito.
Mas quero dizer-te, hoje, OBRIGADO.

Destaques DN

Tive conhecimento da criação de um serviço, para divulgação dos Blogues destacados no DN.
Assim, com todo o gosto, passo a recomendar a consulta do referido espaço, deixando de o fazer aqui. Para especialistas o que é especial.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Homenagem

O Prof. Rómulo de Carvalho fazia hoje 99 anos. O poeta António Gedeão escreveu a Pedra Filosofal. Ele sabia que o sonho comanda a vida.


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em sereno sobressalto
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste,ou capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
oiro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Destaques DN


Blogues do Dia: 16 a 20 Nov

domingo, novembro 20, 2005

4 Elementos


TERRA, ÁGUA, FOGO, AR.

Uma lua branca, brilhante, pairava no céu. Aqui na terra ía pensando em todos os mistérios que ela encerrava...

A água corría numa forte torrente. Vinha da parte mais alta da Vila e naquela rua, de forte inclinação, transformou-se num rio. Foi nesse rio que ele navegou, sonhou, tentou perceber que a invenção do amor era destino para o qual não estava virado...

Era uma vez... Assim começavam as histórias que ouvia em criança. Mas uma de que se lembrava muito bem, porque já era adulto, falava de um fogo intenso que, sendo alimentado por recordações, demorou muito a ser apagado.

João ama a Joana. Joana ama ainda mais o João. Juntos para a vida, até que a morte os separe. Mas, nas voltas e reviravoltas desta viagem que vamos fazendo, houve algo que desfez essa felicidade. Para perceber esses mistérios, fez um apelo ao vento. Para que nas suas voltas e reviravoltas lhe traga, no ar, a resposta que ele quer saber...

sexta-feira, novembro 18, 2005

Retratos

Conheci o Armando há um ano e tal. Caminhava, muito lentamente, numa das ruas da Vila. Só mais tarde percebí a sua deficiência. O Armando é invisual. Não total, pois vai andando, devagar, parecendo já conhecer todos os cantos por onde passa. Não usa bengala nem tem qualquer outra ajuda. Caminha sempre com um ar alegre.
Mora numa aldeia deste Concelho. O pai morreu há pouco e penso que vive com uma tia. Tem irmãos que visita de quando em vez. E pouco mais sei sobre ele. E o que sei é curioso.
O Armando todos os Sábados ( ao fim da tarde ) apanha a camioneta da carreira e vem para a Vila. Do terminal de autocarros, que ainda é longe, vai tomar a bica ao Café do costume. Parte então para a estação ferroviária, onde, com autorização do chefe, passa a noite. Dentro de um comboio, disse-me um dia. No dia seguinte, pela manhã, vai ao mesmo Café tomar a bica ( ou algo mais ) e segue para o supermercado. Fica longe, mas parece-me que as distâncias não o assustam. Encomenda o almoço e volta para a estação de onde partiu. Aqui apanha um comboio que o leva a uma vila-dormitório. Sei, porque mo contou, qual o percurso que faz. Até a uma Igreja onde assiste à missa do meio-dia. Depois da missa, de novo o comboio, de novo o percurso ( que é longo ) até ao super onde vai buscar o almoço encomendado. A partir daqui não tenho muitas referências. Presumo que almoce por alí, até apanhar de novo a camioneta que o leva à sua aldeia. Esta rotina, de um Homem de Fé, é quebrada quando ao Domingo o encontro. Acompanho-o ao Café e depois de novo à estação da CP. A encomenda do almoço faço-a eu por telefone. Assim ele poupa os passos de muitos quarteirões. Tiro, para ele, o bilhete de ida e volta na máquina automática ( às vezes tem boleia da Igreja até aqui ) e despedimo-nos até à próxima.
Nunca convidei o Armando para almoçar comigo. Nunca o convidei para passar a noite em minha casa em vez da incomodidade do comboio. E às vezes, vergonha minha, quando já estou muito cansado, não vou ter com ele, para o acompanhar no seu caminho de Domingo.Conheço-o muito pouco, mas sei que o Armando é um Homem Bom.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Histórias...

....Mais um texto, delicioso, de um livro de encanto.

Alguém falou aí no nome de Julião Galo ? Respeito e a máxima consideração em tudo o que disserem, fazem favor. Favor, é como quem diz, obrigação. Nesta rua passou muita gente boa, do melhor, mas homem como o Julião Galo, meu amigo, irmão, nem procurando com uma candeia ou mesmo holofote. Tipo mais completo ninguém conheceu, nas quatro partidas do mundo, não desfazendo no distinto pessoal. A mim ensinou-me ele a tocar concertina. E sabia ele tocar concertina ? Não senhor. Então, como ? Muito simplesmente: assobiando. Quem não o ouviu pode chorar-se, pouca sorte, nunca em dia nenhum há-de escutar um artista assobiando assim. As modas todas. Davam-nas na telefonia, apanhava logo. E depois tocando-as melhor, mais perfeição só com os beicinhos dele. Grande homem. Qual violino, qual clarinete! Ao pé do assobio do Julião Galo, todo o instrumento soava desafinado e fanhoso. E sem se cansar, de manhã à noite, tirando os retratos ou encostado na porta da loja. Comprei a concertina, nem arranhar sabia. E as músicas ? Nada. Então ele afinca-se à minha beira, vá lá esta, Geraldo, agora aquela, o Julião no assobio e eu dando aos dedos, a ver se engatava no tom, as voltinhas todas. Custoso. Aquilo não era homem, um pássaro. E apertando comigo, só mais uma vez, olha que linda valsa, noites e dias, até ser quem sou de concertina nas unhas. A ele o devo.
Deixou fama em toda a freguesia. Punha-se a assobiar e calava as conversas, escutavam-no como a um bispo. As senhoras em especial, verdade se diga. Não há esses das Indias que tocando flautas encantam as cobras ? Assim ele com o mulheril: pareciam piriquitos atrás da alpista. E o Julião afinadinho, a caprichar, apreciando os olhos delas na boca dele.
Foi assim o caso com dona Lucinda, sua esposa, mãe do Vitorino Francisco, inda cá anda. Fotografia Recordação. Complicado. Porque dona Lucinda, anteriormente, encontrava-se casada com o Arménio Fagolas, da serração. Tipo decente, por acaso. Mas também o Julião e a dona Lucinda. Culpa ninguém teve. Começou por ela: deu em prender-se ao assobio, vá de janela mal lhe zunia no ouvidinho à espera. Tango hoje, valsa amanhã, rumbas, fox-trotes, à mistura com olhares e fosquinhas, é o que dá: Julião ardendo pela ouvinte, pedação de mulher, respeitosamente e vice-versa. Tanto se encegueiraram, acontece o natural de acontecer nestas conformidades: fugiram. Sem malandrice, ou menos vergonha - gostavam, gostavam, resiste-se a tudo menos ao bom. Trouxa às costas e aí vão, ele assobiando, ela toda ouvidos.

Quem rabiou o seu bocado foi o Fagolas, temos de compreender. Até me apareceu, a mim!, pedindo e teimando: " Geraldo, saímos à busca deles. " E eu disse: " Agora, assobia-lhe às botas"
Depressa se lhe gastou a pena, daí a nada pendurou-se no rico braço da menina Salustiana, bem servido. Mas por causa das moscas, o Julião e a sua senhora tardaram um ano a voltar para a rua. Sorte eu já ter aprendido os segredos da concertina.
Vou indo.

" Mário Zambujal - Histórias do fim da rua "

terça-feira, novembro 15, 2005

Destaques DN

Blogues do dia - 12 a 15 Nov

Terraforma
Sapatos Vermelhos
Infohabitar
Salvos e Afogados

domingo, novembro 13, 2005

Nobre / AMI






Tudo o que respeita à AMI e ao Dr. Fernando Nobre me fascina. Um HOMEM que, se fosse Presidente da Republica, só dignificava este país. Mas ainda bem que o Dr Fernando Nobre nunca o será. Longe do Poder tem o poder da dádiva. Com o seu trabalho faz mais pela Humanidade que todos os politicos juntos.
No DN Magazine de hoje podemos ler uma pequena entrevista com esse grande Humanista. Deixo aqui apenas uma frase, a introdução e as fotos de José Caria em AMI Rostos.

O mapa do mundo são rostos


Podia ter sido um prestigiado urologista, ou ter enveredado pela carreira académica. Mas não. Atento às feridas do mundo, optou por se dedicar à medicina humanitária, primeiro com os Médicos sem Fronteiras, depois à frente da Assistência Médica Internacional, a que preside. Fernando Nobre esteve nas grandes crises mundiais das últimas décadas. É um espectador privilegiado da actualidade. Mantém o optimismo, apesar de tudo. Para ele, não há raças nem credos. Os homens são todos iguais. Na vida e na morte. Os poucos tempos livres que tem passa-os entre livros, uma meia de leite e uma torrada com vista para uma palmeira.

sábado, novembro 12, 2005

Du Bocage

(MAGRO, DE OLHOS AZUIS,CARÃO MORENO,)

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deiades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

sexta-feira, novembro 11, 2005

Sérgio

www.olhares.com

Aprendi a amar

Aprendi a amar pela madrugada
no frio denso, no frio denso
com os dentes fechados a morder o lenço
sem poder calcar a porta de entrada
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.

Aprendi a amar com as duas mãos
de amor intenso, de amor intenso
uma para a ferida outra para o penso
a molhar os dedos nos líquidos sãos
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.

Aprendi a amar junto dos armários
queimando incenso, queimando incenso
repetindo mais palavras por extenso
aprendi a amar por motivos vários
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.

Aprendi a amar derramando vinho
no mar imenso, no mar imenso
a ver se não perdia o que sei que não venço
deixando corpos caídos no caminho
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.

Letra de Sérgio Godinho

Destaques DN

BLOGUES DO DIA - 06 a 10 Nov

Pequenos Anjos
A Lei do Funil
Passo a Passo
Flauta Mágica
O Canhoto

quarta-feira, novembro 09, 2005

Abraço

Foto: www.olhares.com

Um abraço a todos vós.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Tristeza

Tristeza, desânimo, apatia. A juntar aos males do corpo, os males da alma. Isto implica uma paragem. Um dia, muitos dias? Não sei. Deixo-vos agora com um poema de Florbela.


Deixai entrar a morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem pra mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo ? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...Pra que eu tivesse sido
Sómente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...
Florbela Espanca

domingo, novembro 06, 2005

Destaques

BLOGUES do DN- De 1 a 5 Novembro

Welcome to Elsinore
Caixa das Esmolas
O Sangue Leonino
Que Universidade?
Dito Cujo

sábado, novembro 05, 2005

Mar Revolto / Mar Azul

Mário, o mais velho, anda contente. Vai voltar a jogar. Tinha prometido a si mesmo não o voltar a fazer mas o bichinho do jogo foi mais forte. Não há janelas opacas que o detenham...

Aníbal, o professor, com o seu ar sizudo, é outro jogador. É homem de poucas conversas, é recatado, lê poucos jornais e ainda se lembra de uma derrota que lhe deixou um amargo sabor a sal...

Francisco, o mais novo, joga pela primeira vez. Irrequieto, adora brincadeiras. A sua preferida, nas tertúlias de amigos, é rabiscar, escrever, desenhar em tudo quanto é sítio. Sempre a tinta da china...

Manuel, porte altivo, poeta da alma lusa, joga por Amor ao seu País de Abril. Nas voltas da vida este é o caminho que ele vai percorrer com toda a sua resistência.

Jerónimo, outro repetente ao jogo, homem respeitado por muitos e odiado por outros é, no grupo dos cinco, aquele que, num mar revolto, mais se adapta à tempestade.

No fim, todos eles vão ganhar. Quem vai perder somos todos nós.

Sei que vai ser sempre assim...

sexta-feira, novembro 04, 2005

Voluntariado

Dois exemplos

Urgência do Hospital de S. José
Semanalmente, com toda a sua vontade, mas também com o cansaço e dores que tem, veste a bata amarela, e entrega-se de corpo e alma aos seus doentes. Não está na área da saúde mas é voluntária. E imaginam o trabalho que isso dá ? São pessoas idosas, na sua maioria, outras etnias, outras nacionalidades, eu sei lá, na mais dura das urgências deste país. Ao fim do dia, ainda mais cansada, eu imagino a satisfação que teve e o Amor que dedicou a toda aquela gente.

Pediatria do IPO-Lisboa
Quinzenalmente ( por escala ) mas muitas vezes mais, aquela jovem entra na pediatria para tomar conta de crianças com cancro. Que muitas vezes, têm outros problemas e outras mazelas. Imagino a alegria mas também o sofrimento, se algo aconteceu, àquele menino. Muitos deles, de outras terras, que no no IPO não têm visitas, só podem contar com os Voluntários(as) da Acreditar.

( A segunda situação conheço-a bem. Já lá estive, como voluntário quase dois anos. Por razões várias, deixei de ir )

Fico verdadeiramente Orgulhoso de ter em S. José a minha mulher. E no IPO a minha filha. Voluntárias e grandes mulheres.


( Hoje, sexta-feira há serviço em S.José. No Domingo, no IPO.)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Sem-abrigo

Criança dorme sobre cartão, com o copo das esmolas junto à cabeça, na expectativa que alguém deposite dentro dele algum dinheiro ( Banguecoque/Tailândia- 30 Julho 2005) @EPA/BARBARA WALTON

Aos sem-abrigo

Ninguém

Vi-te partir. As faces marejadas...
Descias a calçada do futuro.
A alma trôpega, o passo inseguro,
A ilusão trocista, às gargalhadas.

Senti no peito o som das badaladas
Como maços vibrando no chão duro.
Anoiteceu depois... Ergueu-se o muro
A separar as vidas condenadas.

Também sou como tu um peregrino.
Também carrego a cruz do meu destino,
Também faço das lágrimas festim.

Deixa-me ser um padre no teu catre,
Um mendigo de amor que te idolatre,
Um outro irmão do Cristo vivo em mim!

I.F.V.

(Retirado da antiga Travessa)

terça-feira, novembro 01, 2005

Projecto Cais


Revista Cais. Outubro 2005. A Pobreza

( Alguns tópicos do último número desta revista. Cais. Um projecto com que me identifico. )

A POBREZA NÃO É DESTINO DE NINGUÉM.

10.800 pessoas têm rendimentos de cerca de 816 mil euros anuais.

POBREZA NO MUNDO. MAS QUANDO SERÁ AFINAL COISA DO PASSADO ?

O ano de 2005 tem sido marcado por uma campanha mundial sem precedentes dedicada a relegar a pobreza para o passado.

Em cada hora mais de 1200 crianças morrem longe do olhar dos meios de comunicação. É o equivalente a três Tsunamis por mês, todos os meses, a atingir os cidadãos mais vulneráveis do mundo- as crianças. As causas da morte não serão sempre as mesmas mas a esmagadora maioria pode ser atribuida a uma única patologia: a pobreza.

107 milhões de crianças por ano não vivem para ver o seu quinto aniversário e mais de mil milhões de pessoas sobrevivem numa pobreza abjecta com menos de 1 dólar por dia.

Um quinto da humanidade vive em países onde muitas pessoas nem pensam antes de gastar 2 dólares por dia num cappucino. Outro quinto da humanidade sobrevive com menos de 1 dólar por dia e vive em países onde as crianças morrem por falta de uma simples rede mosquiteira.

A pandemia de VIH/SIDA infligiu a maior inversão simples de sempre ao desenvolvimento humano. Em 2003 a pandemia custou 3 milhões de vidas e deixou outros 5 milhões de pessoas infectadas. Milhões de crianças ficaram orfãs.

Os 25 milhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia- 40 % da população mundial - representam 5% do rendimento mundial. Os 10% mais ricos, que vivem quase todos em países de rendimento elevado representam 54 %.

A desigualdade de rendimento está a aumentar em países que representam mais de 80% da população mundial.

As desigualdades extremas estão enraizadas em estruturas de poder que privam as pessoas pobres das oportunidades de mercado, limitam o seu acesso aos serviços e - de forma crucial - lhes negam uma voz política.

Nascer numa família pobre diminiu as possibilidades da vida, nalguns casos em sentido literal.

Os 7 milhões de dólares necessários anualmente durante a próxima década para prover o acesso a água limpa a 26 mil milhões de pessoas são menos do que os europeus gastam em perfume e menos do que os americanos gastam em cirurgias plásticas.

Só o aumento das despesas militares desde 2000 se tivesse sido gasto na ajuda, teria sido suficiente para atingir a velha meta da ONU de gastar 0,7 % do RNB em ajuda.

No seu conjunto, os países ricos gastam actualmente 0,25% do seu rendimento nacional bruto ( RNB ) em ajuda.

A casa é um direito de cada um. Mas no mundo, as pessoas sem-abrigo ou a viver em bairros de lata são cerca de 100 milhões e o número tende a aumentar para 700 milhões. Segundo a UN-Habitat seriam necessários 294 biliões de dólares americanos para garantir uma casa aos 100 milhões que hoje não a têm.

A despesa actual com o VIH/SIDA, uma doença que custa 3 milhões de vidas por ano, representa o valor de três dias de despesas militares.

REDUZIR, SIGNIFICATIVAMENTE, ATÉ 2010, O NÚMERO DE PESSOAS EM RISCO DE POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL. MAS SEREMOS REALMENTE CAPAZES?