Primeiro... António Lobo Antunes.
Elogio do subúrbio
Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
- Vííííííííítor
num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. Cresci junto ao castelito das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferro-O-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos
(Lafaiete, Jaurés)
e habitavam rés-do-chão de janelas ao nível da calçada onde se distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen da acácia me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher do Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na retrete da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas
- O pai do ruço é doutor
no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida
- Sempre estou para ver se lhes chegas ó ruço que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.
O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher do Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava « Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos no intervalo do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava o Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.
Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios
(já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida)
o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob as marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar.
António Lobo Antunes- Algumas Crónicas
... a seguir, Ricardo Araujo Pereira.
O teu subúrbio era mais bonito que o meu
Quando eu era pequeno também vivia em Benfica, António, mas já não vi nada do que tu contas. Nem quintinhas, nem casas baixas, nem o cheiro dos cabedais do sapateiro
(a gente já nem ia ao sapateiro: quando os sapatos se estragavam, iam para o lixo - e o lixo, parecendo que não, tem muito menos graça que a loja do sapateiro, além de que cheira pior)
nem senhoras beatas que transportam a Sagrada Família numa caixa, de casa em casa
(aliás, no meu tempo, nenhum desconhecido nos visitava a casa, excepto três senhores encapuzados que, uma noite, passaram por lá. Mas também deviam ser gente religiosa porque, apesar de não trazerem a Sagrada Família, levaram um terço de prata da minha mãe)
nem acácias, nem cegonhas, nem pavões,
Eu tinha a mercearia do senhor Fernando
(a primeira vez que vi um rato foi na mercearia do senhor Fernando, uma ratazana grande e bonita, com um rabo muito comprido e ar feliz. Os produtos do senhor Fernando eram mesmo bons)
um maluco que tinha sofrido um desgosto de amor no tempo em que não era maluco
(maluco era o que nós lhe chamávamos. Tu, que és médico, provavelmente designá-lo-ias com um termo clínico qualquer, tipo « chalupa », ou assim)
seja como for agora era maluco e dedicava-se a recolher papelão e ficava doido ( admitindo que os malucos podem ficar doidos ) sempre que alguém no bairro comprava um electrodoméstico, não saía da porta do prédio, à espera que deitassem fora a caixa de cartão
- Tem caixotes?
estava sempre a perguntar a quem encontrasse na rua
- Tem caixotes?
repara, António, que não te estou a imitar, não repeti a frase para obter qualquer efeito estilístico, o que se passa é que o maluco, coitado, era mesmo muito repetitivo
- Tem caixotes?
olha, lá está ele outra vez
(uma vez, o irmão do maluco, que não era maluco, descobriu que a mulher o enganava e deu-lhe um tiro. E o maluco contou a história e disse, com a sua voz arrastada de maluco:
- O meu irmão é maluco)
e além do maluco havia também um bêbado, que dizem que era médico em S. José
(uma vez parti a cabeça, fui de urgência para S.José e estive sempre à coca de ver se me aparecia o bêbado, não fosse ele amputar-me uma perna em vez de me coser a cabeça)
e havia ainda a senhora da padaria, que acumulava as funções de padeira com porteira do meu prédio e chefe do centro de inteligência da rua. Reunia informações junto de todas as aus congéneres porteiras e relatava uma súmula aos clientes que levassem pão num valor superior a 50 escudos. Uma vez, o marido da porteira, que era da GNR, afixou na entrada do prédio um papel azul de 60 linhas com selos fiscais e tudo, e escreveu à mão a frase «As órdes da porteira são para serem cumpridas». Depois desse dia nunca mais andei de elevador com a porta aberta
E foi essa padeira que, um dia, quando fazia comigo o rescaldo de um erro de um certo Dínamo de Kiev-Benfica, disputado na véspera
(além de conhecer profundamente a vida dos meus pais e de toda a vizinhança, a padeira também sabia muito de futebol)
me respondeu, na altura em que eu manifestei preocupação pelo facto de o Rui Águas ter partido um pé:
- Ai partiu? É que eu julgava que fosse fractura.
Foi nesse momento que eu decidi que ia escrever textos humorísticos, e que um dia haveria de inventar alguma coisa tão engraçada como «Ai partiu? É que eu julguei que fosse fractura». Ainda espero por esse dia. E é capaz de ser por isto, António, por tu teres vivido num subúrbio muito melhor que o meu, que hoje és um grande escritor e eu sou só um palerma. Assim não vale, pá.
Ricardo Araújo Pereira- Boca do inferno- Revista Visão 30 nov 05