Travessa Larga

" TRAVESSA: rua estreita e curta que estabelece comunicação entre duas ruas principais. " - - Por vezes pode ser larga...

Nome:
Localização: S.Maria, Sintra, Portugal

sexta-feira, dezembro 30, 2005

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta ? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras ?


Eugénio de Andrade, " Trinta Poemas "

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Coisas que acontecem

Venceslau venceu na vida
Timóteo tocou trompete
Samuel sorveu a sopa
Paulino comeu esparguete.

Violeta viu as vistas
Diana doeu-lhe o dedo
Fernandinho foi aos figos
Silvina guardou segredo.

Albertino teve tino
Pedrito passou na praça
Henriqueta enriqueceu
Guidinha não achou graça.

Amadeu deu em doidinho
Noémia não disse nada
Marcela migou as migas
e a Célia fez a salada.

Valdemar virou a vela
Carlota foi ao calista
Luisinha leu as letras
Cristina levanta a crista.

Rosalina fez rissóis
Pompeu visitou Pompeia
Tolentino foi à tropa
Balbina foi à boleia.

Baltazar é batoteiro
Joana vai ao jardim
Laurindinha lava a louça
Francisco fugiu por fim.

José Fanha " Cantigas e Cantigos " , Editora Terramar 2004 , pag. 39

terça-feira, dezembro 27, 2005

De Viagem


O meu pé
pé ante pé
vai daqui
ao Cais Sodré.

Minha mão
tão-baladão
vai daqui
até Mourão.

Meu olhar
a viajar
vai daqui
p`ra lá do mar.

José Fanha" Cantigas e Cantigos " Editora Terramar 2004, pag 5

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Retratos de Natal

Foto " Internet "

O Natal fascina-me e intimida-me. Mesmo sabendo que o Espírito de Natal não é esta azáfama de última hora, para comprar as lembranças (quantas faltam, de quem me esqueço ?) , não é esta caridadezinha de pensarmos nos mais desfavorecidos apenas nestes dias, não é mandar postais agora e esquecermo-nos o resto do Ano, mesmo sabendo isso, repito, é uma Alegria imensa viver estes Natais.
E assim, desejo a todos um Santo Natal.

Não tenho sabido do Armando. Não o tenho encontrado aos Domingos. E agora, que me lembrei que tinha o seu número de telefone, o TM fez o favor de " apagar " todos os registos que havia na letra A. No próximo Domingo é Dia de Natal. Não sei se o Armando virá para estes lados. Mas vou tentar encontrá-lo. Só para ter a certeza que está bem.

O Victor (acho que tem outro nome) apareceu por aqui há uns anos. Começámos por vê-lo a dormir, num dos bancos de um apeadeiro, sempre num saco-cama. O Victor não é sem-abrigo. Mas dorme na rua. Consta que por vontade própria. Actualmente mudou de sítio. Fica, no seu saco-cama, junto às instalações de um Banco. (Cá fora gela. No átrio do Banco, a que temos acesso a qualquer hora, está sempre quente). O Victor nunca pediu esmola. Mas é frequente vê-lo a escrever num dos seus cadernos. E lê bastante. Jornais estrangeiros também. Também o encontrei uma vez, na Biblioteca, na Internet.
Um dia, burrice minha, perguntei-lhe se necessitava de umas roupas novas que eu tinha mas que não me servíam. Ele, com todo o repeito, agradeceu mas recusou. Hoje passo por ele, cumprimentamo-nos, mas não sei de mais nada. E não vou perguntar. Ele vive bem consigo mesmo. Acho eu. Para o Victor um Natal em Paz.

Junto ao Victor aparece às vezes um velhote muito simpático. Andrajoso, tem a dignidade de um Senhor. Às vezes encontro-o no café, onde ele vai buscar uma mini para a beber no seu local de dormida. Logo de seguida volta para devolver a garrafa. Para ele também o desejo de um Bom Natal.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Bocage

Bocage pintado por Henrique José da Silva. Foto DN


Nos 200 anos da morte do Poeta.


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deiades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Manuel Maria Barbosa Du Bocage

(Já publicado nesta Travessa, Nov.2005 )

E....uma adaptação assinada F.B. do " FRATERNIDADE "

Seco, olhar indefinido, carão de mato,
Bem servido de pés e grande altura,
Hirto de semblante, o mesmo de figura,
Nariz empinado a meio, não cordato;

Mestre do silêncio e do recato,
Atabalhoado no falar e na postura
Abandona o porão como um rato;
Quando da proa lhe pedem faladura

Devoto incensador de mil tabus
Auto-verdades balbuciadas sem alento,
Carrega para o altar a sua cruz,

Eis Anibal, de quem se julga algum talento;
Psicótico, fantasma Desejado que reluz
Emergindo do nevoeiro contra o vento.

E mais este:


(JÁ BOCAGE NÃO SOU!...À COVA ESCURA)

Já Bocage não sou!...À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! se me creste, gente ímpia.
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Manuel Maria Barbosa Du Bocage

terça-feira, dezembro 20, 2005

Durmo


Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que ainda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar

Fernando Pessoa- Antologia Poética

(Da outra Travessa )

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Sonho meu

Este é um tempo de partilha. Um tempo também de incertezas. Em que as palavras se enrolam. Dizer perdeste não é bom. E a felicidade interior (e também partilhada) de dizer Venceste, é um Dom.
Este é um tempo de brincar. Como crianças. Porque só elas sabem que, brincando à chuva, têm o melhor das coisas boas.
Este é um tempo de presenças. Presença em cada um de nós, nos outros. E, como um enigma, poder dizer ausência...presente!
Este é um tempo em que voltamos à infância. Em que lembramos como era bom o colo da nossa mãe. Em que mergulhamos, ávidamente, em vidas passadas...
Este é um tempo de sonhar. Sonho meu.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Informação

Para quem não conhece, aconselho o Catálogo2005 da
TRADISOM

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Open space


De manhã, ao sair do loft onde morava, passou pelo snack, tomou um pequeno-almoço buffet, chamou um táxi, recostou-se no banco e agarrou no pda. Pela janela ía mirando os outdors, regalou-se com a imagem daquela top model. Ainda teve tempo de, no seu PC portátil, enviar um e-mail ao seu manager. Fez o check-in para um voo de low-cost que uma operadora de call center lhe tinha sugerido. Queria chegar a Londres a tempo da reunião. O problema das golden share era complexo. Agora no avião, headphones colocados, ouvia a sua música preferida, recolhida num Mp3 de último modelo. ( Olhou a t shirt comprada na véspera, num outlet da outra banda e sorriu. Ao seu amigo Xico tinham-lhe indicado uma loja no shopping. Quando procurara uma parka para homem, encontrou a Zara Home. Por qualquer razão faltava um M, mas enfim. Afinal só tinham artigos para o lar.)
Antes da reunião fez algumas compras para os amigos. Um iPod para o Rui, aquele lindo walkman para o seu sobrinho ( que também pedira walkies-talkies ). Para a Rita, e só como gozo, um belo conjunto da tupperware . Ao João levava-lhe um pack de 3 slips. Ainda conseguiu fazer un upgrade + um plug-in na inscrição da net. Hardware e software não tinham segredos para ele. Estava on-line com as novas tecnologias...

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Subúrbios

Primeiro... António Lobo Antunes.

Elogio do subúrbio

Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
- Vííííííííítor
num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. Cresci junto ao castelito das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferro-O-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos
(Lafaiete, Jaurés)
e habitavam rés-do-chão de janelas ao nível da calçada onde se distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen da acácia me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher do Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na retrete da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas
- O pai do ruço é doutor
no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida
- Sempre estou para ver se lhes chegas ó ruço que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.
O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher do Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava « Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos no intervalo do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava o Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.
Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios
(já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida)
o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob as marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar.
António Lobo Antunes- Algumas Crónicas

... a seguir, Ricardo Araujo Pereira.

O teu subúrbio era mais bonito que o meu

Quando eu era pequeno também vivia em Benfica, António, mas já não vi nada do que tu contas. Nem quintinhas, nem casas baixas, nem o cheiro dos cabedais do sapateiro
(a gente já nem ia ao sapateiro: quando os sapatos se estragavam, iam para o lixo - e o lixo, parecendo que não, tem muito menos graça que a loja do sapateiro, além de que cheira pior)
nem senhoras beatas que transportam a Sagrada Família numa caixa, de casa em casa
(aliás, no meu tempo, nenhum desconhecido nos visitava a casa, excepto três senhores encapuzados que, uma noite, passaram por lá. Mas também deviam ser gente religiosa porque, apesar de não trazerem a Sagrada Família, levaram um terço de prata da minha mãe)
nem acácias, nem cegonhas, nem pavões,
Eu tinha a mercearia do senhor Fernando
(a primeira vez que vi um rato foi na mercearia do senhor Fernando, uma ratazana grande e bonita, com um rabo muito comprido e ar feliz. Os produtos do senhor Fernando eram mesmo bons)
um maluco que tinha sofrido um desgosto de amor no tempo em que não era maluco
(maluco era o que nós lhe chamávamos. Tu, que és médico, provavelmente designá-lo-ias com um termo clínico qualquer, tipo « chalupa », ou assim)
seja como for agora era maluco e dedicava-se a recolher papelão e ficava doido ( admitindo que os malucos podem ficar doidos ) sempre que alguém no bairro comprava um electrodoméstico, não saía da porta do prédio, à espera que deitassem fora a caixa de cartão
- Tem caixotes?
estava sempre a perguntar a quem encontrasse na rua
- Tem caixotes?
repara, António, que não te estou a imitar, não repeti a frase para obter qualquer efeito estilístico, o que se passa é que o maluco, coitado, era mesmo muito repetitivo
- Tem caixotes?
olha, lá está ele outra vez
(uma vez, o irmão do maluco, que não era maluco, descobriu que a mulher o enganava e deu-lhe um tiro. E o maluco contou a história e disse, com a sua voz arrastada de maluco:
- O meu irmão é maluco)
e além do maluco havia também um bêbado, que dizem que era médico em S. José
(uma vez parti a cabeça, fui de urgência para S.José e estive sempre à coca de ver se me aparecia o bêbado, não fosse ele amputar-me uma perna em vez de me coser a cabeça)
e havia ainda a senhora da padaria, que acumulava as funções de padeira com porteira do meu prédio e chefe do centro de inteligência da rua. Reunia informações junto de todas as aus congéneres porteiras e relatava uma súmula aos clientes que levassem pão num valor superior a 50 escudos. Uma vez, o marido da porteira, que era da GNR, afixou na entrada do prédio um papel azul de 60 linhas com selos fiscais e tudo, e escreveu à mão a frase «As órdes da porteira são para serem cumpridas». Depois desse dia nunca mais andei de elevador com a porta aberta
E foi essa padeira que, um dia, quando fazia comigo o rescaldo de um erro de um certo Dínamo de Kiev-Benfica, disputado na véspera
(além de conhecer profundamente a vida dos meus pais e de toda a vizinhança, a padeira também sabia muito de futebol)
me respondeu, na altura em que eu manifestei preocupação pelo facto de o Rui Águas ter partido um pé:
- Ai partiu? É que eu julgava que fosse fractura.
Foi nesse momento que eu decidi que ia escrever textos humorísticos, e que um dia haveria de inventar alguma coisa tão engraçada como «Ai partiu? É que eu julguei que fosse fractura». Ainda espero por esse dia. E é capaz de ser por isto, António, por tu teres vivido num subúrbio muito melhor que o meu, que hoje és um grande escritor e eu sou só um palerma. Assim não vale, pá.
Ricardo Araújo Pereira- Boca do inferno- Revista Visão 30 nov 05

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Duas crónicas

Em tempos foi publicada, no jornal Metro, esta crónica que é uma liçãode força e de vida

«É como um filme bonito mas não sei como acaba»

Todos os dias a gente ouve os rádios, vê os jornais e os telejornais e parece que só há desgraça e aflição. Parece que os jornalistas editores só sabem seleccionar dramas para informar o público. Por isso resolvi encontrar um editor que aceitasse uma história da vida real que é o contrário disso tudo. É uma história verdadeira, passada no Portugal de hoje. Não invento nada, a não ser o nome do herói do filme, a quem vou chamar Ricardo, porque o próprio não me autorizou a divulgar a sua identidade.
Ricardo é um rapaz de 19 anos, que nasceu e vive numa aldeia do interior. É um rapaz pobre. O pai é pastor e a mãe varre ruas. Gente de trabalho, honesta e, apesar das dificuldades, muito agradável e bem disposta. Não sei porquê, mas parece que, no campo, as dificuldades não fecham as caras das pessoas como nas cidades...
Há dois anos, Ricardo esteve para desistir dos estudos. Andava então no 10º ano, as notas eram razoáveis, mas o dinheiro não chegava. Houve uma grande conversa em família e todos perceberam que ele tinha de encontrar um emprego. Mas uma irmã do rapaz, que já trabalha há dois anos longe de casa, quando chegou de fim-de-semana e soube da decisão, zangou-se e teimou que havia de ser ela a pagar os estudos do irmão. E assim foi, depois de muita discusssão. Todas as manhãs, durante dois anos Ricardo caminhou um longo percurso a pé para apanhar a camioneta que o levava à escola. À tardinha chegava, metia-se no quarto, ninguém sabia dele até ao jantar e, depois, para o quarto regressava. Pouca televisão, muita música, muita leitura, muito trabalho de desenho. Magro, alto, sorridente, metido consigo, pouco falava da sua vida. Até que, há dias, chegaram as notas finais do 12º ano. Com 19.9 valores em Geometria Descritiva, o Ricardo tinha conseguido a melhor nota da turma e uma das melhores do país ! Agora, serenamente, confessa que o seu sonho maior é a Arquitectura. Mas sabe que não há dinheiro para isso lá em casa, mesmo com toda a boa vontade da família inteira. Vai meter os papéis para uma bolsa de estudo, a ver se consegue abalar lá para muito longe, para Lisboa, que mal conhece. Entretanto, não perdeu tempo e já começou a fazer um trabalhito temporário que lhe dará uns tostões bem necessários.
Apeteceu-me vir aqui contar-vos esta história. Primeiro, porque é uma história de ânimo, perserverança e mérito. Em tempos de tanto desânimo e tanta desistência por aí, uma família exemplar cerrou fileiras e um jovem consciencioso pôde triunfar. Mas, em segundo lugar, para vos dizer que fico à espera de ver o fim deste filme. Como vai ser tratado pelo Estado, neste Portugal europeu do século XXI, um jovem que deu provas de valor mas...é filho de pastor...é, simplesmente, pobre. Um pobre pode ser arquitecto, aqui ?
Carlos Pinto Coelho, jornalista- in Jornal Metro

E agora a crónica do mesmo jornalista, no mesmo Jornal, esta semana.

«Como uma crónica neste jornal pode ser mais que uma leitura de viagem»

Em Agosto trouxe para estas páginas a história daquele jovem de 19 anos, filho de pastor, que não tinha dinheiro para se matricular em Arquitectura apesar de ter sido o mais brilhante aluno da sua escola- e do país - com 19,9 valores em Geometria Descritiva. Chamei-lhe Ricardo, nome suposto, e não revelei em que região vivia. «É como um filme bonito mas não sei como acaba» escrevi no título dessa crónica, que terminava assim: " Como vai ser tratado pelo Estado, neste Portugal europeu do século XXI, um jovem que deu provas de valor mas...é filho de pastor...é, simplesmente, pobre. Um pobre pode ser arquitecto, aqui? "
Hoje trago-vos o desenvolvimento dessa história. Que se transformou na história de como uma crónica publicada no METRO pode ser mais do que uma leitura de viagem.
Um dia depois da publicação telefonaram-me deste jornal. Uma leitora queria falar comigo e deixara o seu contacto. Liguei-lhe de imediato. E a minha vida ficou mais rica.
Do outro lado da linha, uma voz tranquila e decidida. Jurista, casada com um arquitecto, vive na região de Lisboa, numa casa grande que ficara ainda maior quando os filhos, adultos, partiram para as suas vidas familiares. Leu a crónica no metropolitano, depois guardou o jornal e foi trabalhar. À noite, em casa, estendeu o jornal ao marido e pediu-he que lesse. E conversaram longamente. Nessa mesma noite ficou decidido que o Ricardo, o filho do pastor que não tinha dinheiro para estudar Arquitectura em Lisboa, seria muito bem-vindo se quisesse ir viver para aquela casa grande. Ali encontraria abrigo, alimentação e até ajuda nos seus estudos. Sem se falar em dinheiro, claro. O casal não era rico mas o que tinha, era suficiente para mais um.
Ouvi em silêncio. No fim, perguntei: e porquê ? E a resposta: porque não ? Ele merece, não merece? Insisti: mas nem sequer sabem quem é o rapaz... Resposta: conhecemo-lo quando chegar, se ele quiser vir.
Reservo para mim o que penso sobre este casal, embora não seja muito difícil de adivinhar. Reservo também tudo o que se passou com o Ricardo, depois disso. É lá a vida dele. Mas não quis deixar de vir hoje revelar-vos como uma crónica publicada neste jornal pode ser muito mais do que uma leitura de viagem.
Carlos Pinto Coelho