Senhores, estou farto! Assim «cantava» numa das suas rábulas Raul Solnado, há muitos anos. Estou farto da presença da Selecção Nacional, no mais recôndito cantinho do meu dia-a-dia! Ainda agora a procissão vai no adro e já não há manifestação de vida, neste país, que não seja patrocinadora da «nossa selecção». Da cerveja aos preservativos, passando pela banca, pela Assembleia da República ou pelos transportes públicos, nada tem existência verdadeira se não estiver associado à «equipa de todos nós».Serei um proscrito, depois de escrever estas linhas. Blasfemo tornar-me-ei, ao não entoar o cântico da conquista! Traidor à pátria, ao dizer que já não aguento mais ouvir mencioná-la a reboque do pontapé na bola. Ignorante, chamar-me-ão por não ser capaz de perceber que a Selecção Nacional de Futebol se encontra em sétimo lugar (julgo eu) no ranking da FIFA e que tal significa sermos dos melhores países do mundo na indústria do futebol. Mal-intencionado, classificar-me-ão, por dizer que essa posição ocupada não é uma resultante directa do «volume da produção interna», mas sim das mais-valias que os emigrantes de eleição vão buscar fora de portas. Dir-me-ão que, à escala mundial, só no ramo da cortiça temos projecção semelhante - até que o plástico queira... Sobranceiro e petulante, recriminar-me-ão, ao afirmar que me recuso a colocar à janela a bandeirinha demonstrativa de, cá em casa, não sermos alemães, iranianos, espanhóis, americanos ou ucranianos.Não quero colaborar na intoxicação geral, aceitando a ideia de Portugal ir ganhar (quase de certeza) o campeonato e, com isso, recuperarmos o orgulho ferido e a confiança no futuro. Já houve quem dissesse irmos «lançar a marca Portugal à escala planetária», mostrando ao mundo aquilo que somos capazes de fazer. Não se pode, hoje, embarcar em pantominices destas, tal como muitos outros, tempos atrás, não embarcaram, décadas a fio, quando alguns pretendiam que a nossa vida se cingisse a «Família, Fátima e Futebol».
Paranóia é uma designação possível para aquilo que se vive, agora, por cá. Quase parece estar-se a colocar nos pés da rapaziada - «os nossos valorosos guerreiros» - a possibilidade de resgatarem a «alma lusa» e conquistarem o nosso amanhã radioso em terras germânicas!
Serei, talvez, o português mais rasca do mundo; mas de uma coisa não aceito ser acusado. De não gostar de futebol. Na vida, não são muitos os estímulos que me fazem vibrar com uma arrancada do Figo, um passe do Deco, uma bomba do Petit, uma finta do Ronaldo, uma trivela do Quaresma e, ainda e sempre, um voo do Baía ou uma simulação do Barbosa. Mas são, apenas, bombons saborosos. Mesmo que, daqui a umas semanas, alguns deles me ofereçam uma caixa de chocolates inteirinha, vou continuar a comer sopa todos os dias...
Vasco Prazeres - Domingo Magazine, DN, 11 Junho 2006