Morte
com asas de fogo e línguas de sangue
e desvia o curso dos rios
e o rumo dos ventos,
misturando a súplica com o choro
e a aflição com a mágoa.
A morte desce dos céus
e rouba às crianças
a festa do primeiro sorriso,
a comoção do sonho primordial
e o doce sabor da palavra Paz.
A morte desce dos céus
e mata, mutila e fere,
porque outra coisa não sabe fazer,
proclamando o triunfo brutal
da noite sobre o dia,
das lágrimas sobre os cânticos,
do sofrimento sobre a prece.
A guerra desce dos céus
entre o Tigre e o Eufrates,
e queima os frutos
da memória dos séculos,
Apocalipse escrito com letras de lume
no livro de todos os medos.
A guerra desce dos céus
e quer petróleo para matar a sede,
carne viva para alimentar o ódio,
crateras de cinza para sepultar a esperança.
A morte desce dos céus
sobre as casas e sobre as dunas
e sabe de cor os nomes
daqueles que leva consigo,
tragicamente iguais perante a dor,
para o derradeiro reduto da treva.
A morte desce dos céus
e sufoca devagar a terna palavra Mãe,
seja em que lingua for, Babel da mágoa,
e com asas de fogo e línguas de sangue
vai cegando os olhos de quem quer ver,
devorando, sôfrega e inclemente,
o pouco que resta da inocência do mundo.
José Jorge Letria, Poemas da Linha da Frente, pag.59 (Editora Ausência)





















































