Travessa Larga
" TRAVESSA: rua estreita e curta que estabelece comunicação entre duas ruas principais. " - - Por vezes pode ser larga...
quinta-feira, agosto 31, 2006
Fechada a Travessa Larga, que, por motivos camarários, se vai transformar numa grande Avenida, deixamos um convite. Para uma Viagem. Num Trans-Atlântico.
STOP
Que foi interrompida um pouco a pedido e porque não queríamos deixar de ir comunicando. A Travessa Larga fecha de vez. Terminou o seu tempo e a razão de ser.
Vamos para outras travessias. Atravessar o Oceano.
Num TRANS-ATLÂNTICO.
Que pode ser diferente. Ou talvez não.
OBRIGADO a todos os que por aqui passaram.
quarta-feira, agosto 30, 2006
terça-feira, agosto 29, 2006
segunda-feira, agosto 28, 2006
domingo, agosto 27, 2006
sábado, agosto 26, 2006
sexta-feira, agosto 25, 2006
quinta-feira, agosto 24, 2006
Do lado de lá
TUBARÃO MECÂNICO
Eram três casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. Já tinham jantado, já tinham esgotado todos os assuntos do momento, e estavam entrando em reminiscências, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado o namoro que resultara no casamento de cada par. Da génese, da origem, do foi assim que começou. A primeira voluntária foi a Dolores.
- Devemos nosso casamento a um tubarão.
- A um tubarão?!
- Não um tubarão de verdade. Um tubarão de cinema.
E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme do tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.
- Que vinha a ser adivinhem quem?
Viriato, o marido de Dolores, levantou o dedo e disse «Eu». Foi aplaudido por toda a mesa.
- Aí, Vivi!
Dolores continuou:
- Naquela hora em que o tubarão aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
- Espera aí - interrompeu o Bruno, marido de Rosane. - Porque você se atirou em cima de um desconhecido e não em cima do primo?
- Na hora, com o susto, não escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, não pensada.
A mesa se dividiu, metade achando que não tinha sido tão instintivo assim, que Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a história estava mal contada, e metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
- E aí o Vivi aproveitou e meteu a mão?
- Não. Eu pedi desculpas, nós rimos muito, na saída do cinema ficámos conversando, e o resultado, trinta anos, três filhos e dois netos depois, está aqui. Engraçado, né? Devemos nossa vida a um tubarão mecânico.
Eram três casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. Já tinham jantado, já tinham esgotado todos os assuntos do momento, e estavam entrando em reminiscências, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado o namoro que resultara no casamento de cada par. Da génese, da origem, do foi assim que começou. A primeira voluntária foi a Dolores.
- Devemos nosso casamento a um tubarão.
- A um tubarão?!
- Não um tubarão de verdade. Um tubarão de cinema.
E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme do tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.
- Que vinha a ser adivinhem quem?
Viriato, o marido de Dolores, levantou o dedo e disse «Eu». Foi aplaudido por toda a mesa.
- Aí, Vivi!
Dolores continuou:
- Naquela hora em que o tubarão aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
- Espera aí - interrompeu o Bruno, marido de Rosane. - Porque você se atirou em cima de um desconhecido e não em cima do primo?
- Na hora, com o susto, não escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, não pensada.
A mesa se dividiu, metade achando que não tinha sido tão instintivo assim, que Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a história estava mal contada, e metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
- E aí o Vivi aproveitou e meteu a mão?
- Não. Eu pedi desculpas, nós rimos muito, na saída do cinema ficámos conversando, e o resultado, trinta anos, três filhos e dois netos depois, está aqui. Engraçado, né? Devemos nossa vida a um tubarão mecânico.
- Pois nós - disse a Sibelis - devemos nossa vida a um engano.
Quem mais se surpreendeu com a frase de Sibelis foi o marido dela, o Rubem. Que não disse nada. Sorriu como se também estivesse se lembrando do engano. Mas não sabia do que a mulher estava falando.
- Foi num bar. Eu estava sozinha, e uma amiga minha veio perguntar se eu topava sair com um cara, para acompanhar ela e o namorado dela, e me apontou o cara no outro lado do bar. Gostei do jeito dele e topei.
- E o cara era o Rubem.
- Não. Era um que estava ao lado do Rubem. Eu tinha gostado do jeito do cara errado. Só descobri quando a amiga nos apresentou. O que me tinha agradado era o namorado dela. Mas eu não podia voltar atrás e saí com o Rubem para não ser chata.
- E deu tudo certo.
- Deve ter dado. Casámos e estamos casados até hoje. Trinta anos.
- Viu só? É outro caso de acaso. Outro tubarão mecânico.
- Mas - continuou a Sibelis - eu, ás vezes, penso no que teria sido minha vida se eu não tivesse me enganado. Se o namorado da amiga fosse o Rubem e o outro, o que eu gostei, fosse o meu par naquela noite.
E a Sibelis virou-se para o Bruno e perguntou:
- Você também não pensa nisso, Bruno?
- Eu?!
- Você não lembra? O outro cara era você.
Durante longos segumdos ninguém falou nada na mesa, até o Viriato, só para não deixar o silêncio inflar daquele jeito, dizer a única palavra apropriada para a situação:
- Epa.
O Rubem continuava sorrindo. Disse:
- Eu e a Sibelis comentámos isso seguidamente. Como às vezes um detalhe, um engano, um acaso, pode mudar o destino de...
A Sibelis o interrompeu:
- Você nunca soube do engano, Rubem. Eu nunca contei. Em trinta anos, eu nunca contei. E você nem se lembrava que era o Bruno que estava com você no dia em que nos conhecemos. Não seja fingido, Rubem.
- Olha - disse o Viriato, levantando-se. - Vocês eu não sei, mas está na minha hora de dormir. Vamos para casa, Dol.
- Senta aí, Vivi. - disse a Dolores - Nós estamos na nossa casa. Os outros é que têm que ir embora.
Viriato sentou-se. A Rosane estava irritada.
- É isso que dá, começar a mexer no passado. De quem foi esta ideia, afinal?
O Bruno começou a dizer alguma coisa, mas a Rosane não deixou:
- Com você eu me acerto em casa!
E a Dolores, tentando salvar o que ainda havia para ser salvo:
- Outro cafézinho, gente?
Luis Fernando Verissimo - Jonal Expresso - 1 Abril 2006





















































