Travessa Larga

" TRAVESSA: rua estreita e curta que estabelece comunicação entre duas ruas principais. " - - Por vezes pode ser larga...

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Localização: S.Maria, Sintra, Portugal

quinta-feira, agosto 24, 2006

Do lado de lá


TUBARÃO MECÂNICO

Eram três casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. Já tinham jantado, já tinham esgotado todos os assuntos do momento, e estavam entrando em reminiscências, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado o namoro que resultara no casamento de cada par. Da génese, da origem, do foi assim que começou. A primeira voluntária foi a Dolores.
- Devemos nosso casamento a um tubarão.
- A um tubarão?!
- Não um tubarão de verdade. Um tubarão de cinema.
E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme do tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.
- Que vinha a ser adivinhem quem?
Viriato, o marido de Dolores, levantou o dedo e disse «Eu». Foi aplaudido por toda a mesa.
- Aí, Vivi!
Dolores continuou:
- Naquela hora em que o tubarão aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
- Espera aí - interrompeu o Bruno, marido de Rosane. - Porque você se atirou em cima de um desconhecido e não em cima do primo?
- Na hora, com o susto, não escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, não pensada.
A mesa se dividiu, metade achando que não tinha sido tão instintivo assim, que Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a história estava mal contada, e metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
- E aí o Vivi aproveitou e meteu a mão?
- Não. Eu pedi desculpas, nós rimos muito, na saída do cinema ficámos conversando, e o resultado, trinta anos, três filhos e dois netos depois, está aqui. Engraçado, né? Devemos nossa vida a um tubarão mecânico.


- Pois nós - disse a Sibelis - devemos nossa vida a um engano.
Quem mais se surpreendeu com a frase de Sibelis foi o marido dela, o Rubem. Que não disse nada. Sorriu como se também estivesse se lembrando do engano. Mas não sabia do que a mulher estava falando.
- Foi num bar. Eu estava sozinha, e uma amiga minha veio perguntar se eu topava sair com um cara, para acompanhar ela e o namorado dela, e me apontou o cara no outro lado do bar. Gostei do jeito dele e topei.
- E o cara era o Rubem.
- Não. Era um que estava ao lado do Rubem. Eu tinha gostado do jeito do cara errado. Só descobri quando a amiga nos apresentou. O que me tinha agradado era o namorado dela. Mas eu não podia voltar atrás e saí com o Rubem para não ser chata.
- E deu tudo certo.
- Deve ter dado. Casámos e estamos casados até hoje. Trinta anos.
- Viu só? É outro caso de acaso. Outro tubarão mecânico.
- Mas - continuou a Sibelis - eu, ás vezes, penso no que teria sido minha vida se eu não tivesse me enganado. Se o namorado da amiga fosse o Rubem e o outro, o que eu gostei, fosse o meu par naquela noite.
E a Sibelis virou-se para o Bruno e perguntou:
- Você também não pensa nisso, Bruno?
- Eu?!
- Você não lembra? O outro cara era você.
Durante longos segumdos ninguém falou nada na mesa, até o Viriato, só para não deixar o silêncio inflar daquele jeito, dizer a única palavra apropriada para a situação:
- Epa.

O Rubem continuava sorrindo. Disse:
- Eu e a Sibelis comentámos isso seguidamente. Como às vezes um detalhe, um engano, um acaso, pode mudar o destino de...
A Sibelis o interrompeu:
- Você nunca soube do engano, Rubem. Eu nunca contei. Em trinta anos, eu nunca contei. E você nem se lembrava que era o Bruno que estava com você no dia em que nos conhecemos. Não seja fingido, Rubem.
- Olha - disse o Viriato, levantando-se. - Vocês eu não sei, mas está na minha hora de dormir. Vamos para casa, Dol.
- Senta aí, Vivi. - disse a Dolores - Nós estamos na nossa casa. Os outros é que têm que ir embora.
Viriato sentou-se. A Rosane estava irritada.
- É isso que dá, começar a mexer no passado. De quem foi esta ideia, afinal?
O Bruno começou a dizer alguma coisa, mas a Rosane não deixou:
- Com você eu me acerto em casa!
E a Dolores, tentando salvar o que ainda havia para ser salvo:
- Outro cafézinho, gente?

Luis Fernando Verissimo - Jonal Expresso - 1 Abril 2006

7 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Está perfeito! Gostei imenso. Obrigada pela tua visita nas romãs. Beijos.

24 agosto, 2006 12:31  
Blogger dulce said...

Por vezes há lembranas inconvenientes!
Beijos

24 agosto, 2006 16:02  
Blogger pitanga said...

É melhor não mexer no que está quieto. Também tenho uma história lá no pitangadoce. Vá lá.
abraços Pitanga

24 agosto, 2006 18:55  
Anonymous GR said...

Uma crónica de interessante!
A história quase terminava como o Tubarão, todos a fugirem!

GR

24 agosto, 2006 23:33  
Blogger Leticia Gabian said...

Esta é uma situação à qual chamamos de "saia justa". Aquela que deveria não ter acontecido, mas aconteceu e melou tudo.

Como sempre, Veríssimo dá um banho ao descrever cenas que poderiam acontecer até nas melhores famílias.

Quem canta a música linda?

24 agosto, 2006 23:55  
Blogger Hera said...

Querido, você gosta mesmo de Luis Fernando não é? Eu também adoro! Me escreve que eu te mando por e-mail um conto dele que gosto muito. Beijos (dea.fernandes1@gmail.com)

25 agosto, 2006 05:28  
Anonymous Anónimo said...

Isso foi realmente interessante. Adorei lê-lo

26 janeiro, 2013 12:31  

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