Do lado de lá
TUBARÃO MECÂNICO
Eram três casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. Já tinham jantado, já tinham esgotado todos os assuntos do momento, e estavam entrando em reminiscências, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado o namoro que resultara no casamento de cada par. Da génese, da origem, do foi assim que começou. A primeira voluntária foi a Dolores.
- Devemos nosso casamento a um tubarão.
- A um tubarão?!
- Não um tubarão de verdade. Um tubarão de cinema.
E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme do tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.
- Que vinha a ser adivinhem quem?
Viriato, o marido de Dolores, levantou o dedo e disse «Eu». Foi aplaudido por toda a mesa.
- Aí, Vivi!
Dolores continuou:
- Naquela hora em que o tubarão aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
- Espera aí - interrompeu o Bruno, marido de Rosane. - Porque você se atirou em cima de um desconhecido e não em cima do primo?
- Na hora, com o susto, não escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, não pensada.
A mesa se dividiu, metade achando que não tinha sido tão instintivo assim, que Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a história estava mal contada, e metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
- E aí o Vivi aproveitou e meteu a mão?
- Não. Eu pedi desculpas, nós rimos muito, na saída do cinema ficámos conversando, e o resultado, trinta anos, três filhos e dois netos depois, está aqui. Engraçado, né? Devemos nossa vida a um tubarão mecânico.
Eram três casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. Já tinham jantado, já tinham esgotado todos os assuntos do momento, e estavam entrando em reminiscências, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado o namoro que resultara no casamento de cada par. Da génese, da origem, do foi assim que começou. A primeira voluntária foi a Dolores.
- Devemos nosso casamento a um tubarão.
- A um tubarão?!
- Não um tubarão de verdade. Um tubarão de cinema.
E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme do tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.
- Que vinha a ser adivinhem quem?
Viriato, o marido de Dolores, levantou o dedo e disse «Eu». Foi aplaudido por toda a mesa.
- Aí, Vivi!
Dolores continuou:
- Naquela hora em que o tubarão aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
- Espera aí - interrompeu o Bruno, marido de Rosane. - Porque você se atirou em cima de um desconhecido e não em cima do primo?
- Na hora, com o susto, não escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, não pensada.
A mesa se dividiu, metade achando que não tinha sido tão instintivo assim, que Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a história estava mal contada, e metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
- E aí o Vivi aproveitou e meteu a mão?
- Não. Eu pedi desculpas, nós rimos muito, na saída do cinema ficámos conversando, e o resultado, trinta anos, três filhos e dois netos depois, está aqui. Engraçado, né? Devemos nossa vida a um tubarão mecânico.
- Pois nós - disse a Sibelis - devemos nossa vida a um engano.
Quem mais se surpreendeu com a frase de Sibelis foi o marido dela, o Rubem. Que não disse nada. Sorriu como se também estivesse se lembrando do engano. Mas não sabia do que a mulher estava falando.
- Foi num bar. Eu estava sozinha, e uma amiga minha veio perguntar se eu topava sair com um cara, para acompanhar ela e o namorado dela, e me apontou o cara no outro lado do bar. Gostei do jeito dele e topei.
- E o cara era o Rubem.
- Não. Era um que estava ao lado do Rubem. Eu tinha gostado do jeito do cara errado. Só descobri quando a amiga nos apresentou. O que me tinha agradado era o namorado dela. Mas eu não podia voltar atrás e saí com o Rubem para não ser chata.
- E deu tudo certo.
- Deve ter dado. Casámos e estamos casados até hoje. Trinta anos.
- Viu só? É outro caso de acaso. Outro tubarão mecânico.
- Mas - continuou a Sibelis - eu, ás vezes, penso no que teria sido minha vida se eu não tivesse me enganado. Se o namorado da amiga fosse o Rubem e o outro, o que eu gostei, fosse o meu par naquela noite.
E a Sibelis virou-se para o Bruno e perguntou:
- Você também não pensa nisso, Bruno?
- Eu?!
- Você não lembra? O outro cara era você.
Durante longos segumdos ninguém falou nada na mesa, até o Viriato, só para não deixar o silêncio inflar daquele jeito, dizer a única palavra apropriada para a situação:
- Epa.
O Rubem continuava sorrindo. Disse:
- Eu e a Sibelis comentámos isso seguidamente. Como às vezes um detalhe, um engano, um acaso, pode mudar o destino de...
A Sibelis o interrompeu:
- Você nunca soube do engano, Rubem. Eu nunca contei. Em trinta anos, eu nunca contei. E você nem se lembrava que era o Bruno que estava com você no dia em que nos conhecemos. Não seja fingido, Rubem.
- Olha - disse o Viriato, levantando-se. - Vocês eu não sei, mas está na minha hora de dormir. Vamos para casa, Dol.
- Senta aí, Vivi. - disse a Dolores - Nós estamos na nossa casa. Os outros é que têm que ir embora.
Viriato sentou-se. A Rosane estava irritada.
- É isso que dá, começar a mexer no passado. De quem foi esta ideia, afinal?
O Bruno começou a dizer alguma coisa, mas a Rosane não deixou:
- Com você eu me acerto em casa!
E a Dolores, tentando salvar o que ainda havia para ser salvo:
- Outro cafézinho, gente?
Luis Fernando Verissimo - Jonal Expresso - 1 Abril 2006


7 Comments:
Está perfeito! Gostei imenso. Obrigada pela tua visita nas romãs. Beijos.
Por vezes há lembranas inconvenientes!
Beijos
É melhor não mexer no que está quieto. Também tenho uma história lá no pitangadoce. Vá lá.
abraços Pitanga
Uma crónica de interessante!
A história quase terminava como o Tubarão, todos a fugirem!
GR
Esta é uma situação à qual chamamos de "saia justa". Aquela que deveria não ter acontecido, mas aconteceu e melou tudo.
Como sempre, Veríssimo dá um banho ao descrever cenas que poderiam acontecer até nas melhores famílias.
Quem canta a música linda?
Querido, você gosta mesmo de Luis Fernando não é? Eu também adoro! Me escreve que eu te mando por e-mail um conto dele que gosto muito. Beijos (dea.fernandes1@gmail.com)
Isso foi realmente interessante. Adorei lê-lo
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